As últimas dezoito horas, passo a passo, para quem esqueceu quem ele é.
μνήσθητι (lembra-te) — e nunca mais esqueça.
Noite entre oliveiras. Ele confessa: «a minha alma está triste até a morte» — περίλυπος ἕως θανάτου (profundamente triste, até a morte). Lucas, o médico, registra o suor descendo ὡσεὶ θρόμβοι αἵματος (como grumos de sangue) — fenômeno que a medicina conhece, sob terror extremo, como hematidrose.
Ele viu o cálice inteiro antes de bebê-lo — açoite, cravos, abandono — e pediu três vezes que passasse; os amigos dormiram três vezes; e a resposta veio dele mesmo: γενηθήτω τὸ θέλημά σου (seja feita a tua vontade). A cruz foi decidida ali, no escuro, de joelhos.
Tochas, espadas, um destacamento — e o sinal combinado é um beijo (φίλημα). Ele dá um passo à frente: «a quem buscais?» — e à resposta diz Ἐγώ εἰμι (Eu sou), o Nome do Sinai numa boca humana; e recuaram e ἔπεσαν χαμαί (caíram por terra). O pelotão armado no chão diante do homem desarmado.
Ele ainda cura a orelha do servo ferido (Lc 22:51), negocia a liberdade dos seus — e só então estende os punhos às cordas.
Julgamento de madrugada, testemunhas falsas que nem mentindo combinam. À pergunta direta — «és tu o Cristo?» — a resposta mais direta da história: Ἐγώ εἰμι (Eu sou). Vestes rasgadas, veredito: ἔνοχος θανάτου (réu de morte); cuspe no rosto, socos, venda nos olhos: «profetiza! quem te bateu?».
No pátio, o mais corajoso dos doze nega três vezes — e o galo canta. Lucas guarda o detalhe: στραφεὶς ὁ κύριος ἐνέβλεψεν τῷ Πέτρῳ (voltando-se, o Senhor olhou para Pedro) — no meio do próprio julgamento, ele se vira para cuidar do amigo que falhava; e Pedro ἔκλαυσεν πικρῶς (chorou amargamente).
O tribunal de Roma. Pilatos pergunta «que é a verdade?» — Τί ἐστιν ἀλήθεια; — com a Verdade em pessoa diante dele, e declara três vezes que não encontra culpa. O único réu absolvido pelo juiz e executado assim mesmo.
A multidão escolhe Barrabás — bar-abbá, ironia de ferro: «filho do pai» —; o filho do pai é solto, o Filho do Pai fica com a cruz dele. Pilatos lava as mãos (ἀπενίψατο — lavou); água não lava sentenças.
O flagelo romano era o flagrum — correias com pontas de osso e chumbo, feitas para arrancar; a lei de Israel limitava a quarenta golpes menos um, Roma não contava. Isaías viu o resultado sete séculos antes: desfigurado além da aparência humana (Is 52:14).
Depois, o teatro: coroa trançada de espinhos — a planta da maldição do Éden (Gn 3:18) — pressionada no crânio, manto escarlate, caniço por cetro, joelhos dobrados em zombaria. Pilatos o exibe esperando compaixão: Ἰδοὺ ὁ ἄνθρωπος (Eis o homem). A resposta é «crucifica».
Sobre os ombros abertos pelo flagelo, a trave — o patibulum, dezenas de quilos — rumo ao Γολγοθᾶ (Gólgota, Lugar da Caveira), na hora em que a cidade escolhia cordeiros para a Páscoa.
João pesa as palavras: βαστάζων ἑαυτῷ (carregando ele mesmo) — ninguém tomou dele a obra; «ninguém tira a minha vida: eu a dou» (Jo 10:18).
O corpo já não obedece; os soldados usam a requisição imperial — ἀγγαρεύουσιν (requisitam à força) — sobre um estrangeiro de Cirene que voltava do campo.
Lucas anota a coreografia involuntária: pôs-se a cruz sobre ele para levá-la ὄπισθεν τοῦ Ἰησοῦ (atrás de Jesus) — a definição do discípulo, cumprida por um recruta do acaso. Marcos nomeia os filhos, Alexandre e Rufo, conhecidos da comunidade: aquela família ficou.
Mulheres batem no peito atrás dele — e o homem em pior estado do cortejo se volta para consolar e advertir: «não choreis por mim; chorai por vós e por vossos filhos».
Ele enxerga o ano 70 vindo sobre a cidade e resume num provérbio: «se fazem isto ao lenho verde (ξύλον ὑγρόν), que será do seco (ξηρόν)?».
Hora terceira, cerca de nove da manhã (Mc 15:25). Cravos de ferro (ἧλοι) atravessam punhos e pés — não é lenda: em 1968, em Jerusalém, achou-se o calcanhar de um crucificado do século I com o cravo ainda no osso. A cruz matava por asfixia: para soltar o ar era preciso erguer o corpo sobre os cravos — cada respiração, uma decisão de dor.
E é gastando essas respirações que ele diz a primeira frase do alto — não maldição: advocacia — Πάτερ, ἄφες αὐτοῖς (Pai, perdoa-lhes), «não sabem o que fazem»; Lucas usa o imperfeito ἔλεγεν (dizia): repetia, a cada martelada.
Dois criminosos, um de cada lado — e a cruz do meio era a vaga de Barrabás. Um zomba; o outro, sem currículo e sem tempo de reparar nada, faz a oração mais curta e eficaz já registrada: μνήσθητί μου (lembra-te de mim).
A resposta não tem estágio probatório; tem prazo: σήμερον (hoje). A primeira alma escoltada ao paraíso pelo próprio Rei foi um condenado da pena capital.
Quando os fortes fugiram, ficaram quatro mulheres e um discípulo. João anota o verbo: εἱστήκεισαν (estavam de pé) — Maria de pé junto à cruz, trinta e três anos depois de ouvir que uma espada lhe atravessaria a alma (Lc 2:35).
Do alto, com o ar racionado pelos cravos, ele ainda administra a casa: entrega a mãe ao amigo, o amigo à mãe. Ninguém que é dele fica desamparado — nem na hora em que ele próprio é o desamparado.
Do meio-dia às três — da hora sexta à nona — σκότος (trevas) sobre toda a terra: a criação apaga as luzes diante do que se passa com o seu Autor. Do escuro, o grito: a primeira linha do Salmo 22 — o salmo das mãos e pés traspassados e das vestes sorteadas, que termina em vitória.
Depois, duas palavras da Fonte das águas vivas: διψῶ (tenho sede).
Não um suspiro de derrota: um grito em alta voz, numa palavra só — Τετέλεσται —, o mesmo carimbo que os papiros comerciais da época estampavam nos recibos: PAGO.
No mesmo instante o véu do templo ἐσχίσθη (rasgou-se) de alto a baixo — direção que mão humana não alcança: Deus abrindo a porta pelo lado de dentro. E um centurião pagão, especialista em mortes, assina o primeiro laudo da fé: «verdadeiramente este era Filho de Deus».
Dois membros do Sinédrio saem da sombra: José de Arimateia pede o corpo — e Pilatos, admirado, confere a morte com o centurião antes de liberar (Mc 15:44–45): atestado de óbito romano, lavrado por profissionais de execução. Nicodemos traz cerca de cem litras — uns trinta quilos — de mirra e aloés: sepultamento de rei para um crucificado.
Linho, μνημεῖον καινόν (túmulo novo) na rocha, a pedra. E repare: μνημεῖον vem de μνήμη (memória) — todo túmulo, em grego, é um memorial. Começa o sábado mais silencioso da história.
Οὐκ ἔστιν ὧδε, ἀλλὰ ἠγέρθη
Não está aqui, mas ressuscitou — Lc 24:1–8; 1Co 15:3–4
«Cristo morreu por nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia» (1Co 15:3–4). Madrugada do primeiro dia da semana: a pedra fora do lugar — removida não para ele sair, mas para nós vermos. Não é uma estação da Paixão: é o veredito que revela que o silêncio do túmulo não teve a última palavra.
E aqui as memórias se encontram: ele pediu «fazei isto εἰς τὴν ἐμὴν ἀνάμνησιν (em memória de mim)»; o ladrão pediu μνήσθητί μου (lembra-te de mim). O μνημεῖον (memorial) mais visitado do mundo é visitado por estar vazio.