Não é produzido pela força da minha inteligência.
PRIMEIRA CONFISSÃO
Eu achei que mistério fosse apenas aquilo que ainda não resolvi.
Eu o tratava como um problema aguardando uma inteligência melhor. Um cofre sem combinação. Um quarto escuro onde bastaria acender a lâmpada. Sob esse nome, “mistério”, eu escondia apenas a minha impaciência com o desconhecido.
Mas Mateus não diz que os mistérios foram fabricados pelos discípulos. Diz que lhes foi dado conhecê-los. Antes de ser posse, há dom. Antes de haver explicação, há uma relação entre quem fala, quem escuta e aquilo que se deixa reconhecer.
I · O QUE SÃO?
Talvez o mistério não seja uma parede.
Talvez seja uma semente.
Uma parede interrompe. Uma semente concentra. Ela é pequena não porque contenha pouco, mas porque guarda em silêncio uma forma maior do que a sua aparência.
Em Mateus 13, o Reino chega como semente lançada. O que está escondido não está morto; trabalha numa escala que os olhos apressados não acompanham. O mistério não seria, então, ausência de sentido. Seria sentido vivo antes de se tornar paisagem.
Eu disse: “agora sei — mistérios são verdades ocultas”. Mas uma semente não é apenas verdade escondida. É futuro pedindo solo.
A PRIMEIRA RACHADURA
Se eu consigo definir um mistério sem ser alterado por ele, talvez eu tenha definido apenas uma palavra.
II · O QUE FAZEM?
Eles não ocupam apenas a mente.
Eles fermentam o inteiro.
O fermento desaparece dentro da massa. Ainda assim, depois dele, nenhuma parte permanece exatamente como era.
Se os mistérios do Reino apenas fornecessem informação secreta, produziriam especialistas. Mas as parábolas pedem outra prova: fruto, mudança de medida, misericórdia, discernimento, nova maneira de ver. Seu efeito não é ornamentar o conhecedor. É atravessá-lo.
Por isso desconfio do homem que anuncia possuir o mistério e continua intocado por ele. Talvez o mistério mais verdadeiro seja aquele que reduz a nossa vaidade enquanto amplia a nossa responsabilidade.
Eu disse: “agora sei — mistérios transformam”. Mas não sei distinguir, em mim, transformação de fascínio.
ENTÃO PERGUNTO
O mistério me pertence
ou eu é que passei a pertencer
à pergunta que ele abriu?
IV · AO QUE SE PARECEM?
Com uma pérola que torna
inúteis as antigas balanças.
A pérola não cresce porque o comerciante acredita nela. Seu valor o precede. O encontro apenas revela que suas medidas anteriores eram pequenas demais.
O mistério se parece com aquilo que não cabe no preço que eu lhe dou. Não é caro porque exige muito; exige muito porque, diante dele, o resto muda de proporção. Conhecê-lo é experimentar uma revisão brutal das escalas.
E ainda assim: quem garante que não confundi valor infinito com desejo intenso? O entusiasmo também fabrica absolutos. A confissão precisa conservar essa ferida aberta.
Eu disse: “agora sei — o mistério é o bem incomparável”. Mas fui eu quem o reconheceu, ou apenas projetei nele a minha fome?
V · O QUE MAIS FAZEM?
Eles reúnem.
E também discernem.
A rede de Mateus 13 não recolhe apenas o que já parece puro. Ela atravessa o mar e traz diferenças à luz.
Há nisso uma advertência para o meu desejo de mistério: revelação não é fuga das coisas concretas. O oculto do Reino desemboca em escolhas, frutos e consequências. A rede reúne, mas não dissolve. Proximidade não é identidade. Inclusão não é indiferença.
Eu quis um mistério que me retirasse do mundo. A parábola devolveu-me ao mundo com olhos mais responsáveis — e com menos desculpas.
Eu disse: “agora sei — mistérios separam verdade e aparência”. Mas temo usar essa frase para julgar os outros antes de permitir que ela me julgue.
UMA GRAMÁTICA DA HUMILDADE
O versículo inteiro resiste ao meu orgulho.
Não é apenas colecionar palavras sobre o sagrado.
Não se fecha numa fórmula única que eu possa guardar.
Não existe para aumentar o meu reino particular.
ARTE NEXUS · 07 / 07 · A CONFISSÃO DO NÃO SABER
ÚLTIMA CONFISSÃO
Achei que saberia
o que são os mistérios.
Chamei-os de sementes: ainda era pouco.
Chamei-os de fermento: ainda era pouco.
Chamei-os de tesouro, pérola e rede: imagens dadas para abrir o olhar, não grades para aprisionar o real.
Eu quis transformar revelação em domínio. Quis sair desta página como proprietário de uma resposta. Mas o mistério não ficou menor para caber em mim. Eu é que fui diminuindo diante dele.
No fim,
nada sei.
E talvez esta não seja a negação do que foi dado. Talvez seja a única maneira honesta de não confundir o que conheço com a totalidade daquilo que me conhece.
FONTES & VESTÍGIOS
A página confessa; as fontes deixam rastros.
- SBL Greek New TestamentTexto grego crítico usado como base para Mateus 13:11.
- Mateus 13 · SBLGNTO versículo no fluxo completo das parábolas.
- LSJ · μυστήριονA história semântica: rito secreto, segredo e verdade religiosa revelada.
- Catecismo · parábolas do ReinoAs parábolas como convite, espelho e entrada no Reino.